Saudade de ti, Ó Malhão!
Entre rochas e falésias,
tua fresca ondulação,
longo e branco areal,
praia dimensão,
onde vou respirar
em Alentejo Litoral.
Saudade de ti, Ó Malhão!
Pra me encontrar...
(Maria, 7-07-2013)
«Dai-me a casa vazia e simples onde a luz é preciosa. Dai-me a beleza intensa e nua do que é frugal. Quero comer devagar e gravemente como aquele que sabe o contorno carnudo e o peso grave das coisas.
Não quero possuir a terra mas ser um com ela. Não quero possuir nem dominar porque quero ser: esta é a necessidade.
Com veemência e fúria defendo a fidelidade ao estar terrestre. O mundo do ter perturba e paralisa e desvia em seus circuitos o estar, o viver, o ser. Dai-me a claridade daquilo que é exactamente o necessário. Dai-me a limpeza de que não haja lucro. Que a vida seja limpa de todo o luxo e de todo o lixo. Chegou o tempo da nova aliança com a vida.»
«S. PEDRO E A FERRADURA
HÁ muita gente que imagina que só as coisas ricas têm valor e despreza tudo quanto parece de somenos importância.
Ora isto é um erro, porque às vezes as coisas mais insignificantes podem servir de muito.
Foi o que verificou S. Pedro, quando andava no Mundo na companhia do Mestre.
Iam os dois, um dia, por uma estrada fora e encontraram uma ferradura. Disse Nosso Senhor Jesus Cristo ao discípulo:
— Pedro, apanha essa ferradura.
— Ó Senhor, para que a hei-de apanhar, se está velha e ferrugenta? Não serve para nada.
O Mestre não respondeu, mas deixando o discípulo ir adiante, abaixou-se, sem ele ver, e apanhou a ferradura.
Chegando a uma cidade por onde tinham de passar para irem para o seu destino, tornou Jesus Cristo a ficar para trás e, sem o imprevidente discípulo dar por isso, foi a um ferrador que lhe deu dez reis pela ferradura. Depois, passando por um sítio onde se vendia fruta, comprou dez reis de cerejas, que guardou sem o companheiro ver.
Atravessaram a cidade sem descansar, porque era urgente o que os chamava a outra, ainda mais longe. Pela estrada fazia um calor de rachar, e o pobre S. Pedro, aflito, não fazia senão suspirar e dizer:
— Se ao menos tivesse qualquer coisa que me refrescasse a boca, não me custava tanto suportar o ardor deste dia de verão!
O Mestre sorriu-se e, andando alguns passos adiante, deixou cair uma cereja, disfarçadamente.
O discípulo viu-a no chão, e, sem pensar que tinha sido deitada pelo companheiro, abaixou-se, limpou-a do pó e comeu-a com satisfação.
Assim foram seguindo: o Senhor sempre semeando as cerejas, e o bom do S. Pedro apanhando-as e comendo-as, sem ver de onde vinham, até que, no fim de se acabar a provisão, lhe disse Jesus Cristo:
— Que trabalho tiveste em apanhar as cerejas, Pedro! Melhor farias se tivesses apanhado a ferradura.
— Uma ferradura velha, para que me servia? As cerejas comem-se e a ferradura não presta para nada.
— Pois se não fosse a ferradura não tinhas as cerejas.
E contando-lhe o que fizera, aconselhou-o a nunca desprezar as coisas pequenas, porque sem elas não se pode ter as grandes.
S. Pedro aproveitou a lição, e daí para diante não tornou a ser imprevidente.»
"Todas as pessoas grandes começaram por ser crianças
(embora poucas se lembrem disso)"