quarta-feira, 22 de maio de 2013

Ao aBraço!



Dizem que hoje é o Dia do Abraço!

Mas o abraço também tem Dia?
Que teimosia esta dos Dias,
que não pára de contar
o tempo que há nos dias!
Até para abraçar
quem o tempo nos faz lembrar...

Um sempre cheio aBraço para todos,
Maria



quinta-feira, 9 de maio de 2013

À Espiga...



Saí, espiga velhinha,
pendurada que estava na porta,
seca e protectora...
 
E me transformei numa nova...
Pra trigar, em cada lar,
E nunca o alimento faltar.





(Maria, 9-05-2013)




«O Dia da Espiga celebra a Primavera e consagra a Natureza. Herdeiro directo de rituais gentios, de intensos cantares e danças, realizados durante séculos por todo o mundo mediterrâneo.
Para os povos arcaicos, esta data, como todos os momentos de transição, era mágica e de sublime importância. Nela se exortava o eclodir da vida vegetal e animal, após a letargia dos meses frios, e a esperança das novas colheitas.
O Dia da Espiga, coincidente com a Quinta-feira da Ascenção, é uma data móvel que segue o calendário litúrgico cristão, assinalando, para os cristãos, a ascensão de Jesus Cristo ao Céu, ao fim de 40 dias. À semelhança do que fez com outras festas ancestrais pagãs, a Igreja cristianiza a data e esta atravessa os tempos com uma dupla acepção: como Quinta-feira de Ascenção e como Dia da Espiga, traduzindo esta aspectos e crenças não religiosos, mas exclusivos da esfera agrícola e familiar, com origem muito anterior à era cristã.
O Dia da Espiga é então o dia em que as pessoas vão ao campo apanhar a espiga, que não é apenas um viçoso ramo de várias plantas. A sua composição, número e significado varia de região para região, e é guardado durante um ano, pendurado, normalmente, na parede da cozinha ou da sala, como multifacetado amuleto, para trazer a abundância, a alegria, a saúde e a sorte.
Em muitas terras, ainda, quando faz trovoada, as gentes deitam à lareira um dos pés do ramo da espiga, para afastar a tormenta.
Não obstante as variações locais, de modo geral o ramo de espiga é composto por:
-pés de trigo e de outros cereais, como centeio, cevada ou aveia;
-ramo de oliveira;
-ramo de videira;
-papoilas;
-malmequeres;
-outras flores campestres.

E a simbologia de cada planta, comumente aceite é a seguinte:
-o trigo representa o pão;
-a oliveira, o azeite e a paz;
-a videira, o vinho e a alegria;
-a papoila, o amor e a vida;
-o malmequer, o ouro e a prata,
-o alecrim, a saúde e a força.

Além destas associações ao pão e ao azeite, a espiga surge também conotada com o leite, com as proibições do trabalho e ainda com o poder da Hora, isto é, com o período de tempo que decorre entre o meio-dia e a uma hora da tarde, tomando mesmo, nalguns sítios em Portugal, a designação de Dia da Hora. Nas localidades em que assim acontece, acredita-se que neste período do dia se manifestam os mais sagrados e encantatórios poderes da data, e, nas igrejas, realiza-se um serviço religioso de Adoração, após o qual toca o sino. Diz a voz popular que nessa hora "as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha, o pão não leveda e até as folhas se cruzam".
»

(Fonte: "Festividades Cíclicas em Portugal" - Ernesto Veiga de Oliveira. Lisboa: Publ. Dom Quixote, 1984.)

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Dança ao Sol


Escrevi-te, Sol,
uma mensagem a cores,
pintada,
em frequências de luz,
 e em arco-íris, gravada...

E num intervalo,
comprimento de onda, bastante,
a uma velocidade constante,
te pedi, 
pra minha mensagem voar!

E chegar,
num vazio espaço, 
quase perfeito,
sem intermédio, 
às estrelas, mais além...

Já recebeste?
Pra que a Terra, não deixes,
nunca, de iluminar!
E com teu vento solar
com ela, sempre, 
meigamente, dançar. 



(Maria, 3-05-2013)



"Quando te tiveres erguido a oriente no horizonte,
Terás enchido todas as terras com a tua beleza...
Mesmo estando muito longe, os teus raios estão sobre a Terra
."

(Akhenaton, Hino ao Sol (excerto), 1370 a.C.)





Vamos dançar...


Gosto de dançar
e ver dançar!

O Merengue da República Dominicana
e o Chá-Chá-Chá cubano e latino-americano
a Dança do Ventre, do Oriente,
cheia de Mil e Uma Noites, mágica, materna, ondulada!
E o Samba brasileiro, em movimentos sensuais,
o Tango sério, apaixonado, masculino, argentino.
Até a Salsa de Cuba, dança com sabor...
e o Paso Doble, com origem espanhola.

O Sapateado da Irlanda,
por Fred Astaire e Ginger Rogers imortalizado.
E o Kizomba de Angola, sempre em festa!
Ou o Kuduro africano, de quadril firme e duro.
E o corridinho português,
o Vira do Minho
e o Fandango ribatejano,
em traje de gala lusitano.
E da Madeira, o bailinho,
rodado e colorido
em jardim bailado
no meio do mar plantado...

E tantas, tantas outras!...

Mas o que eu gosto mais,
é de ver tanta gente rodando,
em harmonia, dançando,
na Terra, sem parar...
envoltas no mesmo som,
transportado pelo mesmo ar,
ouvindo as mesmas ondas
em frequência tridimensional.

E escutando outras!...
Por aí a vaguear,
a aguardar...
que à velocidade da luz
o passo possamos acertar
e com elas,
crescer e evolucionar.




(Maria, 29-04-2013)


"The emotions are stirred and take form in words.
If words are not enough, we speak in sighs.
If sighs are not enough, we sing them.
If singing is not enough, then unconsciously
our hands dance them and our feet tap them
."

(Message from Lin Hwai-min, Founder/Artistic Director, Cloud Gate Dance Theatre of Taiwan.  It is said in the Great Preface of "The Book of Songs," an anthology of Chinese poems dating from the 10th to the 7th century BC)

Mais info:
International Theatre Institute ITI - World Organization for the Performing Arts: International Dance Day: 2013 Message Author
Scientific American Brasil: A neurociência da dança

terça-feira, 23 de abril de 2013

Para ti... Livro



Gosto quando te leio e folheio
e passeio nas tuas páginas coloridas,
escritas ou impressas,
soltas ou cosidas,
manuscritas,
ou navegando no digital.

Quando as tuas palavras
escorreitas e direitas
dizem as coisas claramente
e põem os pontos nos is,
sem reticências.

Ou quando deixas no ar,
com três pontos,
as tuas ideias
pra me deixar voar...

E quando puxas por mim,
e entre dois pontos,
fazes extensa enumeração ou explicitação,
e, por fim,
entre vírgulas,
a uma pausa sensata
de curta duração.

E entre aspas
me desafias
pra uma citação...

E por vezes me enleias,
em inquieto travessão,
com personagens
tão longínquas e próximas,
em falas de emoção!

E entre parênteses,
deixas apartes
e te metes entre elas, 
de permeio,
com tua interposição,
em observação...

E quando, em ponto final,
me deixas,
envolta na tua conclusão,
vivo, em repouso, 
deitado a chão
em imensa solidão...

E eu contigo, no meu coração,
mexendo em minha razão,
em interrogação, exclamação,
desassossego e inspiração...
olhando, pesando e pensando,
outros olhos, em transformação...


Imagem: "Livro..."


(Maria, 23-04-2013)


Dia Internacional do Livro, dedicado à Bibliodiversidade:
"A Bibliodiversidade pode entender-se como a oferta variada de livros. Contudo, mais do que esta definição, prosaica e redutora do fenómeno cultural a uma simples medida económica, a variedade pressupõe a multiplicidade linguística, que vai do idioma mais estranho ao dialecto quotidiano; a liberdade ideológica e a janela que oferece ao mar inquieto das verdades, que não é só uma; a possibilidade de viver o que outros sofreram e amaram, no passado, ou sofrem e amam em terras longínquas. (...) É, pois, a capacidade de elegermos entre quantos mundos nos oferecem os olhos dos outros e, com eles ou face a eles, aprendermos sobre o nosso próprio mundo.
Desde há muito se tem afirmado, uma e outra vez, que uma pessoa só se define e conhece em relação com o que não é: quanto mais pobre for a realidade que nos rodeia, mais pobres seremos nós próprios.
É por isso que a chamada à Bibliodiversidade, centrada tanto quanto possa estar num problema de produção e oferta, é, acima de tudo, um reconhecimento e uma petição para que ampliemos a nossa vida com um olhar estranho e, compreendendo os demais, nos entendamos e cresçamos...
"
 (Adaptação e tradução livre de excerto da "Comunicação de Fernando Zapata López, Director do CERLALC - Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e Caribe/UNESCO", no Dia Internacional do Livro, 2013, que se comemora hoje, 23 de Abril.)

Mais info:
CERLALC - Centro Regional para el Fomento del Libro en América Latina y el Caribe
UNESCO - CERLALC-Message

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Almada... o menino


E a fé com que inventou o seu futuro...


"A flor
Pede-se a uma criança: Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era de mais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!"
 




"Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!
Traz tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.
Quando eu voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!
"
 (Almada Negreiros, A Invenção do Dia Claro, 1921)


José Sobral de Almada Negreiros, nasceu a 7 de Abril de 1893, em São Tomé e Príncipe, e faleceu em Lisboa, a 15 de Junho de 1970, com 77 anos.
Artista multifacetado, símbolo da arte moderna portuguesa, foi escritor, poeta, dramaturgo, desenhador, caricaturista-humorista, escultor, pintor.
Colega e amigo de Fernando Pessoa, e de Mário de Sá Carneiro, do grupo do Orpheu, impossível de ter continuadores pois nunca se pede bis pela abertura, como ele próprio dizia(*).

Dedicou a maior parte da sua vida à escrita. Em A Invenção do Dia Claro, de 1921, o meu único livro(*), como lhe chamou em 1953, Almada fala de um filho pródigo que parte em busca de uma vida diferente, junto do saber livresco e civilizacional, mas regressa ao ambiente materno, ciente do seu engano, apontando para a exigência da verdade.
Simultaneamente poesia, prosa e arte poética, é a obra que melhor retrata a face da recuperada ingenuidade infantil de Almada.
Escolhendo modelos que visitam a minha memória(*), O menino entre os doutores(*), como lhe chamava Fernando Pessoa, começou a pintar Na idade em que ainda nada se pinta...; Não era por alegria, foi por necessidade dela.(*)
É sua a pintura mais reconhecida do grande poeta, o retrato do seu amigo ávido do amigo(*), Fernando Pessoa.
Do artista, que do convivio social dizia: A pessoa de arte é a que convive com o maior número de gente diferente, porque não reconhece em cada um a sua classe social apenas.(*)
Almada, para quem alguma boa recordação da infância seria:
Uma. A fé com que inventei o meu futuro.(*)

Ao longo deste ano estão previstos inúmeros eventos que assinalam os 120 anos do seu nascimento.
(*) In "DIGA-NOS A VERDADE", Diário de Lisboa, p.9, Quarta-feira/28 de Janeiro de 1953, nº 10832, ano 32 (Entrevista biográfica conduzida por E.C.)

Mais info:
Biblioteca Nacional Digital de Portugal:  Obras digitalizadas de Almada Negreiros
Centro de Arte Moderna (CAM)/Fundação Calouste Gulbenkian: José de Almada Negreiros
Centro de Arte Moderna (CAM)/Fundação Calouste Gulbenkian: José de Almada Negreiros, Retrato de Fernando Pessoa (1964)
Wikipedia: Diário de Lisboa

(Maria, 10-04-2013)

quarta-feira, 3 de abril de 2013

E encantamento...


Do meu Alentejo profundo
vejo a poesia e a beleza...
Mas não te digo, não,
se é terra ou maresia,
ouro ou tesouro,
achamento ou encantamento...


Ou se tudo isso...

"Queres conhecê-lo?
Vem para o meu lado
que já podes vê-lo..."




Além ao cimo,
a janela do pátio,
em castro muralhado,
por onde uma moura encantada
andou...
e um tesouro guardou
e por ele se encantou...





E antes dela habitado,
por seres iluminados...





Atlantes refugiados,
fugidos do mar...
pra aqui, terra alta,
seu lar recomeçar...
  







Aqui os jogos,
do moinho e do alquerque...

 




em pedra polida, 
que essas gentes
laboriosas e habilidosas
esculpiram, partilharam,
e em comunidade jogaram,
e outros vindouros, depois,
estratégias pensaram
e pra nós, deixaram...







E contando a história,
de Ferro, do Castro...





sepulturas xistosas escavadas,
circulares e rectangulares,
adormecidas, umas,
outras, já acordadas...






E lá ao fundo...

                                                       


 
 guardando a muralha,
o Mira espreitando
e serpenteando...
subindo e ligando,
calmo, até ao mar...




 Assim conta Al-calá, 
de seu árabe nome...
 

E em romaria,
a cada Setembro,
a Senhora da Cola.




(Maria, 02-04-2013) 
Mais info:








Povoado de Castro da Cola, Alentejo - Portugal

Neolítico até à Época Medieval:
este povoado revela vestígios de ocupação que se estendem desde a Pré-História (Neolítico - do grego neos/novo, e lithos/pedra; o período mais recente da Idade da Pedra; Pedra Polida; aprox. entre 10.000/3.000 a.C.; - ou Calcolítico - do grego khalkos/cobre, e lithos/pedra; período da Idade do Cobre; aprox.entre 2.500/1.800 a.C.) até uma época posterior à Reconquista Cristã (século XIII) altura em que terá sido abandonado.

"Classificado como Monumento Nacional desde 1910, constitui uma das mais importantes estações arqueológicas portuguesas. A sua monumentalidade chamou a atenção de diversos estudiosos desde, pelo menos, o século XVI, mas o seu estudo sistemático apenas se inicia em 1958 com uma extensa equipa de arqueólogos dos quais se destaca Abel Viana, que aí trabalhará até à sua morte, em 1964.
A fortificação principal, sobre o rio Mira, é composta por uma muralha com um perímetro aproximado de 330 metros. A entrada para esta última fazia-se através de uma grande torre, de que restam, apenas, as fundações. Daí acedia-se a um amplo pátio, que formava o centro da Al-calá (fortaleza), palavra árabe que veio a dar origem ao topónimo Cola."
(excerto de Circuito Arqueológico da Cola - Guia. Centro de Acolhimento e Interpretação Castro da Cola, Ourique - Portugal. Edição IPPAR - instituto Português do Património Arquitectónico)

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Achamento!...



Em antiga mina de ouro, no Alentejo,
cristais extraterrestres foram achados!
Até agora desconhecidos,
mas já considerados...
minerais de eras futuras
em quântica computação!
Guiados por outros tempos
e por nova geração
voados até nós,
nosso presente 
em dádiva transformação.


 
(Maria, 1-04-2013)




sábado, 30 de março de 2013

Feliz Páscoa!



Desejo a todos uma Feliz Páscoa.
Para além de crenças, ou de formas de celebração
para que aquilo em que acreditamos
e o nosso renascer
não nos abandone nunca.
E sobretudo nesta época
em que a Terra e a Natureza
despertam para uma nova vida.

Com carinho:

Feliz Páscoa! abraços
Buona Pasqua! abbracci
Feliz Pascua! abrazos
Joyeuses Pâques! câlins
Happy Easter! hugs
Frohe Ostern! umarmung
Hyvää Pääsiäistä! halauksia
Καλό Πάσχα! αγκαλιές
...
Maria

"Eostre, Ostara, deusa da fertilidade, do renascimento, deusa da aurora, da Primavera, da ressurreição da Terra, na mitologia nórdica e anglo-saxónica.
Os festivais da Primavera na mitologia nórdica relacionam-se com Frigg ou Frigga (Deusa-Mãe, esposa de Odin), com Eos (deusa grega do amanhecer), Astarte (deusa fenícia) ou, ainda, Ishtar (deusa babilónica).

Dos cultos pagãos nasceu a Páscoa, Pessach do hebraico; Pascha em latim; Πάσχα (Páskha) do grego; Pasqua em italiano; Pascua em espanhol; Pâques do francês; Páskar do islandês; Easter em inglês; Ostern em alemão ...

A festa da Páscoa passou a ser um evento religioso cristão após a última ceia de Jesus Cristo com os Apóstolos, na Quinta-Feira Santa. Depois da sua morte, por crucificação (na Sexta-Feira Santa), celebra-se a ressurreição de Cristo (no Domingo).
Um ritual de passagem da morte para a vida.


O Domingo de Páscoa é determinado pelo antigo sistema de calendário lunar, que o coloca no primeiro domingo, após a primeira Lua Cheia do Equinócio da Primavera, no Hemisfério Norte, ou do Outono, no Hemisfério Sul."

Em 2013, o Equinócio foi no dia 20 de Março e a primeira Lua Cheia, depois dele, ocorreu neste último dia 27. Por isso festejamos a Páscoa amanhã, dia 31 de Março, Domingo.

"Os antigos povos nórdicos comemoravam o Festival de Eostre (nome da Deusa) no dia 30 de Março.

Segundo a lenda e a tradição pagã, a Deusa, sempre rodeada de crianças, transformou um pássaro em lebre, para sua grande alegria.
Com o tempo, porém, a lebre ficou infeliz pois já não podia voar nem cantar.
Tentando desfazer o encantamento, a Deusa não o conseguiu. Esperou então até o Inverno passar, uma vez que nesta estação do ano o seu poder diminuía.

Assim o pássaro ficou lebre até que a Primavera chegou...

A Deusa conseguiu então transformar a lebre novamente em pássaro. Agradecido, o pássaro pôs ovos em sua homenagem, pintou-os e distribuiu-os pelo mundo.
Ficou assim a tradição de se oferecerem ovos decorados na Páscoa, costume que veio até aos nossos dias.


A lebre é muito conhecida pelo seu poder gerador e o ovo é símbolo de fertilidade e vida.
Dizia-se que se deviam pintar os ovos com símbolos equivalentes aos nossos desejos, mas um deveria ser enterrado, como presente para a Mãe-Terra. É o Ovo Cósmico da Vida, a fertilidade da Mãe-Terra.


E desde então, a Lebre de Eostre pode ser vista na Lua Cheia para relembrar às pessoas as consequências do "acto de interferir no livre-arbítrio de alguém".


 


Mais info:
Wikipedia:

Páscoa  Pessach  Mitologia Nórdica  Eostre  Ostara  Eos  Astarte  Ishtar  Frigga 
                                                                                                                                              Maria, 30-03-2013

quinta-feira, 28 de março de 2013

Ao Teatro... Gil Vicente



No Dia Mundial do Teatro,
recordando Gil Vicente...






Fundador do teatro literário português, Gil Vicente nasceu em 1465 (data provável) e faleceu em 1540 (data limite).

Sobre Gil Vicente, André de Resende (seu contemporâneo) dizia ser autor e actor muito hábil em dizer verdades disfarçadas em facécias e em criticar costumes entre leves gracejos.

Num texto que data de 1522, Gil Vicente distingue três categorias nas suas obras: comedias, farças y moralidades. Anteriormente a Gil Vicente, as representações eram simples e serviam para marcar festividades religiosas. Na corte também havia pequenas representações improvisadas: os momos.




Entre a vasta produção de Gil Vicente, o Auto da Lusitânia, representado em 1532 para o rei D. João III, como homenagem ao nascimento do seu filho, o príncipe D. Manuel, nascido em Dezembro de 1531. 
Composto por duas partes, exemplo acabado de teatro no teatro, o Auto da Lusitânia é o primeiro caso conhecido no teatro português em que tal prática se encontra plenamente realizada. (...)
Em sentido estrito, em Lusitânia há uma mudança de nível dramático com instauração de uma nova acção.
A segunda parte de Lusitânia aborda a origem mítica de Portugal:
"Da união entre a ninfa Lisibea e o Sol nasce Lusitânia, que herda a beleza materna. Lusitânia desperta em Portugal, um caçador grego, profundo interesse. A ninfa sente ciúmes da filha, morre, e é enterrada no local onde se veio a edificar a cidade de Lisboa. Assiste-se posteriormente ao casamento de Portugal com a princesa Lusitânia."
Naquella cova Sebilaria, muyto sabio & prudentissimo Senhor, o autor foy ensinado que ha tres mil annos que hua generosa ninfa chamada Lisibea, filha de hua Raynha de Berberia, & de hum Principe marinho que a esta Lisibea os fados deram por morada naquellas medonhas barrocas que estam da parte do Sol ao pee da Serra de Sintra que naquelle tempo se chamava a Serra Solercia. E como por vezes o Sol passasse polo opposito da lustrante Lisibea, & a visse nua sem nenhua cubertura, tam perfeyta em suas corporaes proporções, como fermosa em todolos lugares de sua gentileza; ouve della hua filha tam honrada de sua luz, que lhe pozeram nome Lusitania, que foy diesa & senhora desta provincia. Neste mesmo tempo avia na Grecia hum famoso cavaleyro & muy namorado em estremo & grandissimo caçador, que se chamava Portugal, o qual estádo em Ungria ouvio dizer das diversas & famosas caças da Serra Solercia, & veyoa buscar. E como este Portugal, todo fundado em amores, visse a fermosura sobre natural de Lusitania, filha do Sol, emproviso se achou perdido por ella. Lisibea sua madre de desatinada ciosa, morreo de ciumes deste Portugal. Foy enterrada na montanha que naquelle tempo se chamava a Felix Deserta: onde depois foy edificada esta cidade, que por causa da sepultura de Lisibea lhe pozeram nome Lixboa. Neste presente auto entraraa primeyramente Lisibea, & Lusitania, & Portugal em trajos de caçador, & Mayo messageyro do Sol, & depois Mercurio com certas diesas. E porque o autor sapressa pera vos representar o argumento que naquelle tempo passaram, Lisibea grandissima ciosa com Lusitania sua filha, he razam que lhe demos lugar...

Mais info:


Biblioteca Nacional de Portugal - Digital: Gil Vicente, Obras Completas. Lisboa, 1928.

Figueirinhas Ed.: Dicionário de Literatura, Jacinto do Prado Coelho. 4.º volume.

Quimera Editores: LUSITANIA, Graça Abreu. Lisboa, 2005 (E-book) 
Wikipédia:  Auto da Lusitânia

(Maria, 27-03-2013)








quinta-feira, 21 de março de 2013

Contigo... Sebastião



Hoje, Dia Mundial da Poesia, 
e sempre, 
dar-me inteiramente:

O Poeta beija tudo, graças a Deus... E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade... E diz assim: É preciso saber olhar...E pode ser, em qualquer ideia, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescentes e profundo como os homens feitos... E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma flor que está por detrás...E perde tempo (ganha tempo...) a namorar uma ovelha... E comove-se com coisas de nada: um pássaro que canta, uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de sol depois de um dia chuvoso... E acha tudo importante... E pega no braço dos homens que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim... E reparou que os homens estavam tristes... E escreveu uns versos que começavam desta maneira: «O segredo é amar...».


(...) Viajo para povoar a minha solidão da paisagem que vou vendo e para conhecer mais gente que mereça a pena... Faço o possível por meter-me com os outros, mas não é uma aproximação tagarela... quero é descobrir o coração dos que vão comigo, senti-lo bater. (...) Andamos no mundo quase todos como se fôssemos desconhecidos uns dos outros: quero Amor, quero a mesa aberta, quero a sinceridade e o abraço. Quero estar à mesa do pobre, sem ser por atitude calculada, antes porque o coração mo pede; quero estar à mesa do rico à minha vontade. Quando o pobre não percebeu isto, eu saí; saí, quando o rico não percebeu isto.

(Sebastião da Gama, Professor e Poeta, in "Diário". Obras Completas de Sebastião da Gama, Vol.I; Coord. J.R.Ribeiro. Editorial Presença: 1ª edição, Lisboa, Fevereiro, 2011; pp.78-79

(Maria, 21-03-2013)

terça-feira, 19 de março de 2013

Meu Pai...



No dia quente em que nasci
meu pai andava por montes,
riachos e fontes,
pra cá e pra lá
em passos impacientes,
demorados e longos...

Quando eu saí
em casa entrou e me abraçou
e nunca mais me deixou,
O meu Pai.

Nem no dia, quando morria,
que comigo falou
e eu não sabia
que de mim se despedia...
Adeus, filha.

Até um dia, Pai.




(Maria, 19-03-2013)

Só! António Nobre



Memórias de uma infância feliz...


António Nobre, poeta português, nasceu a 16 de Agosto de 1867 no Porto. Faleceu a 18 de Março de 1900, na mesma cidade (Foz do Douro).
, o livro mais triste que há em Portugal, nas palavras do autor, foi a única obra publicada em vida (1892) e reeditada posteriormente.
Constitui um dos marcos da poesia portuguesa do século XIX, influenciando decisivamente o modernismo português (Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, entre outros grandes nomes), tornando a escrita simbolista mais coloquial e leve.

"Apesar de ser real o sentimento de tristeza, SÓ aparece também marcado pela memória de uma infância feliz no norte de Portugal, desenvolvendo a sua história em torno da paisagem rural e da melancolia, no passado feliz e no agora, da agonia. E sob a máscara da ironia, em certos poemas, esconde o pessimismo de uma descrença individual que retrata a sua época..."





«Viagens na Minha Terra»
Às vezes, passo horas inteiras
Olhos fitos n'estas brazeiras,
Sonhando o tempo que lá vae;
E jornadeio em phantazia
Essas jornadas que eu fazia
Ao velho Douro, mais meu Pae.

(...)

Ó Portugal da minha infancia,
Não sei que é, amo-te a distancia
Amo-te mais, quando estou só...
Qual de vós não teve na Vida
Uma jornada parecida,
Ou assim, como eu, uma Avó?


(Excerto do poema Viagens na Minha Terra in SÓ - António Nobre. Liv. Aillaud e Bertrand: Paris-Lisboa; 
Liv. Francisco Alves: Rio de Janeiro - São Paulo - Bello Horizonte. 3.ª Ed., 1913, pp. 61-65)



«Canção da Felicidade»

Felicidade! Felicidade!
Ai quem ma dera na minha mão!
Não passar nunca da mesma idade,
Dos 25, do quarteirão.

Morar, mui simples, n'alguma caza
Toda caiada, defronte o Mar;
No lume, ao menos, ter uma braza
E uma sardinha p'ra n'ella assar...

Não ter fortuna; não ter dinheiro,
Papeis no Banco, nada a render:
Guardar, podendo, n'um mialheiro
Economias p'r'o que vier.

(...)


(Excerto do poema Canção da Felicidade in SÓ - António Nobre. Liv. Aillaud e Bertrand: Paris-Lisboa; 
Liv. Francisco Alves: Rio de Janeiro - São Paulo - Bello Horizonte. 3.ª Ed., 1913, pp. 45-46)



 «Luzitania no Bairro-Latino»

1
........................................ Só!

Ai do Luziada, coitado,

(...)


Menino e moço, tive uma Torre de leite,
Torre sem par!
Oliveiras que davam azeite,
Searas que davam linho de fiar,
Moinhos de velas, como latinas,
Que São Lourenço fazia andar...
Formozas cabras, ainda pequeninas,
E loiras vaccas de maternas ancas
Que me davam o leite de manhã,
Lindo rebanho de ovelhas brancas;
Meus bibes eram da sua lã.

(...)

Menino e moço, tive uma Torre de leite,
Torre sem par!
Oliveiras que davam azeite...
Um dia, os castellos cairam do Ar!

As oliveiras secaram,
Morreram as vaccas, perdi as ovelhas,
Sairam-me os Ladrões, só me deixaram
As velas do moinho... mas rotas e velhas!

Que triste fado!
Antes fosse aleijadinho,
Antes doido, antes cego...

Ai do Luziada, coitado!

(...)

2

Georges! anda ver meu paiz de Marinheiros,
O meu paiz das Naus, de esquadras e de frotas!

(...)

3

Georges! anda ver meu paiz de romarias
E procissões!
Olha essas moças, olha estas Marias!
Caramba! dá-lhes beliscões!

(...)

Qu'é dos Pintores do meu paiz estranho,
Onde estão elles que não vêm pintar?


(Excerto do poema Luzitania no Bairro-Latino in SÓ - António Nobre. Liv. Aillaud e Bertrand: Paris-Lisboa; 
Liv. Francisco Alves: Rio de Janeiro - São Paulo - Bello Horizonte. 3.ª Ed., 1913, pp. 25-35)





Nos últimos anos de vida, António Nobre empreendeu uma dolorosa peregrinação, entre sanatórios na Suiça, na Madeira, em Lisboa, a casa da família no Seixo... tendo falecido aos 32 anos, com tuberculose, perto da paisagem rural e melancólica da sua infância feliz.


Mais info:

Biblioteca Nacional de Portugal - Digital: SÓ, António Nobre

Centro Virtual Camões: Figuras da cultura portuguesa, António Nobre


(Maria, 18-03-2013)



quarta-feira, 13 de março de 2013

Moinho de vento...



E assim nas asas do vento
Gira, a entreter a imaginação,
Esse moinho do tempo
Que me embala pra outra dimensão.







(Maria, 13-03-13)

terça-feira, 12 de março de 2013

Fernão, Mentes? Minto...



Tão espantosas são as coisas que contas...








"E nisto vieram a parar meus serviços de vinte e um anos, nos quais fui treze vezes cativo e dezasseis vendido, por causa dos desaventurados sucessos que atrás, no discurso desta minha tão longa peregrinação, largamente deixo contados..."

(excerto de "A Peregrinação", de Fernão Mendes Pinto)



Viajante, aventureiro, explorador e escritor português do século XVI, Fernão Mendes Pinto nasceu por volta de 1509/1511 (*), no seio de uma família pobre da «vila de Montemor-o-Velho», e faleceu no Pragal, Almada, a 8 de Julho de 1583.

Sabemos que veio para Lisboa em 1521 (**) e, em Março de 1537, inicia a sua fantástica Peregrinação, partindo para a Índia. Alcançou a barra de Diu, em Setembro desse mesmo ano, e poucos dias depois ia a caminho do Mar Vermelho, dando início a um percurso épico e atribulado, espelho do que foi a vida de muita gente lusa, deambulando pelas terras do Oriente do século XVI.

Fernão Mendes Pinto é um exemplo dessa diáspora lusa, navegando daqui para ali, comprando e vendendo o que havia, e sonhando com o regresso à sua terra. 

Por mais de vinte anos percorreu os mares do Oriente, passando por Pegu, Sião, Malaca, Samatra, Java, China e Japão.

Deixou-nos um relato de todas estas viagens e aventuras, a que chamou "Peregrinação". 
A sua obra tem sido alvo de considerações e críticas diversas, contestando os factos descritos e acusando-o de efabulação. Daí o trocadilho com o nome do autor (Fernão, Mentes? Minto.).

Peregrinação é, também, um testemunho da vida nos mares do Oriente, no século XVI: as noites de chuva, o vento que rasga as velas, as amarras que partem, as vagas que varrem o convés, o sono, o cansaço, a fome, o medo, são elementos legítimos e verdadeiros da narrativa, tão intensos como a própria realidade.

Talvez que o julgamento da sua obra como mentirosa e o trocadilho com o nome do autor possam ser melhor compreendidos à luz das espantosas, notáveis e estranhas coisas que viu e que conta, e da descrença que provocavam em todos aqueles que nunca tinham viajado. E também pelo incómodo causado com a sua descrição de reinos, terras e gentes do Oriente...

Escreveu este magnífico texto quando já vivia na sua Quinta do Pragal, onde passou os últimos 25 anos da sua vida e onde veio a falecer.


(*) "Assim situam o seu nascimento a maioria dos biógrafos, baseados no que o autor nos diz na sua obra, ao afirmar que tinha 10 ou 12 anos quando morreu o rei D. Manuel I, no dia de Santa Luzia, em 13 de Dezembro de 1521."

(**)  "Conforme recorda o autor, porque um seu tio o trouxe para Lisboa no dia em que «se quebraram os escudos pela morte de El-Rei...»."


Mais info

Biblioteca Nacional de Portugal - Digital Peregrinação

CVC - Instituto Camões Biblioteca Digital Camões Fernão Mendes Pinto, Sátira e Anti-Cruzada na Peregrinação (Autor: Rebecca Catz)
 
(Maria, 12-03-2013)



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

É noite, Cesário...



É noite de céu limpo.

Os astros, com olheiras,

libertam lágrimas de luz.






 IV Horas Mortas


«O tecto fundo de oxygenio, d'ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vem lagrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a chimera azul de transmigrar.

...

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!...»

(Cesário Verde)



(Excerto do poema «O sentimento d'um occidental - IV Horas Mortas» de Cesário Verde. In O Livro de Cesario Verde: 1873-1886. Publicado por Silva Pinto. Lisboa, 1887, p.66. Biblioteca Nacional Digital)



José Joaquim Cesário Verde, poeta português, nasceu em Lisboa a 25 de Fevereiro de 1855.  Faleceu a 19 de Julho de 1886, aos 31 anos. Os seus versos foram reunidos em livro (O Livro de Cesário Verde), um ano após a sua morte, por Silva Pinto.


(Maria, 25-02-2013)






domingo, 24 de fevereiro de 2013

Ao teu encontro, David...



Um poema sobre o amor. 
Espiritual, poderoso, eterno.
A união dos elementos no amor,
em viagem de beleza, de vida,
mas também de incerteza...
Que a memória não apagará,
num encontro depois da morte,
transitória...




Praia do encontro
«Esta imaginação de sal e duna,
inquieta e movediça como areia,
ergue, isolada, a praia, mais a espuma
que sereia nenhuma
saboreia...

Quisesses tomar tu este veleiro,
que em secreto estaleiro construí,
sem velas, sem cordame, sem madeira,
- mas branco!, e todo inteiro
para ti...

Brilha uma luz de morte sobre o porto
saído mesmo agora da memória...
Ali estarei, à tua espera, morto,
ou vivo em minha morte
transitória...

Combinado. Que eu juro não faltar!
Contrário de Tristão, renascerei,
se pressentir, aérea, sobre o Mar,
a sombra singular
do barco que te dei.»

(David Mourão-Ferreira)


(David de Jesus Mourão-Ferreira, escritor, crítico literário, ensaísta, poeta e ficcionista, nasceu em Lisboa a 24 de Fevereiro de 1927. Faleceu na sua cidade natal a 16 de Junho de 1996, aos 69 anos.)

Maria, 24-02-2013


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Tempo de Imbolc...



É tempo de Sol a crescer.
Tempo para renascer,
sentir o ar a aquecer
e a primavera a chegar.

É tempo para recomeçar.
Tempo para semear,
dar o melhor.
E sempre acreditar
que da terra geada,
escondendo o nada,
o novo vai despertar.

       
Maria, 2-02-2013

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O Tejo...




Do meu estimado amigo brasileiro, 
Mário Sérgio Baggio:


«O Tejo
"O Tejo é mais belo que o rio que passa pela minha aldeia.
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que passa pela minha aldeia, porque o Tejo não é o rio que passa pela minha aldeia."

Conhecedor de minha admiração por Fernando Pessoa, um amigo pediu que lhe explicasse a aparente contradição que há nesses belos versos do poeta português. Para mim não há contradição alguma, penso que a ideia central está muito clara nas palavras finais: "porque o Tejo não é o rio que passa pela minha aldeia". Isso explica tudo. Mesmo assim, resolvi dar uma "explicação" ao meu amigo. Eis o que eu disse, como se eu fosse o poeta português:

"Realmente, o Tejo é mais belo que o rio que passa pela minha aldeia. Maior, muito mais largo, mais barulhento, banha a capital da nação. Por ele passam grandes navios, cheios de carga e de gente. Sua corrente é caudalosa, violenta. Sua grandeza é arrebatadora, sua exuberância desnorteia, seu gigantismo entontece. O rio que passa pela minha aldeia, não: é pequeno, estreito e modesto. Sua correnteza é quase imperceptível - não há movimento, não há barulho, quase uma água parada. Há, sim, um sussurro, um murmúrio, um quase silêncio, bem diferente do vozeirão do Tejo. É um rio tímido e acanhado, esse que passa pela minha aldeia; um quase nada de água. Nenhum navio navega pelo rio que passa pela minha aldeia. Mas é ao pé dele que me sento e penso; que escuto; que conto segredos (a ele ou a mim mesmo?); que vejo meu rosto refletido na água quase sem movimento; que choro e me acalmo; que morro de frio e fecho os olhos quando o vento encrespa a água; que me lembro de antigas canções, antigos amigos, antigos amores. Nada disso teria lugar ao pé do Tejo. O Tejo é belo, mas não é mais belo que o rio que passa pela minha aldeia."»
(Publicado em: "Nossa Língua Portuguesa (Brasil)", no LinkedIn, 25-01-2013, e no Facebook)



Obrigada, meu amigo, pelo seu olhar à "aparente contradição" de Fernando Pessoa. 
Vamos ler?


 «O Guardador de Rebanhos

Poema XX

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.»


(Fernando Pessoa, Poesia de Alberto Caeiro "O Guardador de Rebanhos, Poema XX". Lisboa: Ed. Fernando Cabral Martins e Richard Zenith; ed. original Assírio & Alvim. Bibl. Fernando Pessoa e a Geração de Orpheu, 2006, pp. 53-54.)



E ouvir :)

com Tom Jobim (N.: 25-01-1927/Rio de Janeiro)




Um aBraço, Maria

 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Gostei de rever-te...



Gabriela. 

Reencontrar-me nas minhas memórias a preto e branco de menina, nesses idos de 1977. Quando te via diariamente, se a Tv estivesse ao alcance dos meus olhos... e se uma Sônia Braga, demasiado despida, não fossem motivos para me impedirem de assistir à minha curiosidade natural.
Na verdade, então como agora, mas de cores vestida em Juliana Paes, para entrar e lembrar, de como "o vento não precisa pedir licença pra ventar..."


E de reler-te... Jorge Amado.

«Do sol e da chuva com pequeno milagre.

Naquele ano de 1925, quando floresceu o idílio da mulata Gabriela e do árabe Nacib, a estação das chuvas tanto se prolongara além do normal e necessário que os fazendeiros, como um bando assustado, cruzavam-se nas ruas a perguntar uns aos outros, o medo nos olhos e na voz:
- Será que não vai parar?
Referiam-se às chuvas, nunca se vira tanta água descendo dos céus, dia e noite, quase sem intervalos.(...)»

(Obras de Jorge Amado "Gabriela, Cravo e Canela." Publicações Europa-América, 8ª edição, Dezembro de 1971. Capitulo Primeiro, p.27)









 «Com Gabriela, Cravo e Canela, Jorge Amado volta de novo ao convívio dos Portugueses, à intimidade dum povo que tanto o ama, tão sôfregamente o tem lido e há tanto tempo o admira. Que o admira desde a sua alvorada, muito antes de ele ser, como é hoje, uma das primeiras figuras literárias do Brasil e da nossa época, um dos mais qualificados representantes duma literatura tão rica de valores e tão variada de expressões como é actualmente a da sua grande pátria.(...)» (Ferreira de Castro in op.cit., p.14)


E de aprender contigo :)


«Vocabulário (*)

Balacubaco. - «É do balacubaco» significa: «É óptimo, é formidável».

Brinques. - «Toda nos brinques» quer dizer: «muito elegante».

Calça porta-de-loja. - Calça barata, de pano vagabundo.

Cotucar. - Tocar com o dedo nas costas ou na barriga.

Desparrame. - Exagero. «Desparrame de beleza» é um exagero de beleza.

Fifó. - Lanterna primitiva, feita com frascos vazios de remédio e mecha de algodão.

Fuzuê. - Briga, barulho.

Iaô, ou filha-de-santo. - Designação em língua nagô das iniciadas no candomblé. A pessoa é iaô deste ou daquele santo (de Xangô, de Oxossi, de Yemanjá, etc.), conforme é dedicada a este ou àquele. A iaô «recebe» o santo nas macumbas, veste-se com suas roupas e dança as suas danças. A iaô é «cavalo» do seu santo.

Marinetes. - Ônibus. Nome dado no Estado da Baía, porque ali apareceram os primeiros ônibus quando da evidência de Marinetti e do futurismo.

Mata-cachorro. - Ajudante nos circos, que faz os trabalhos braçais.

Mula-de-padre. - Superstição popular. Mulher que viveu com padre, ao morrer torna-se mula-de-padre.

Neném. - Criança pequena.

Pinicar. - Tocar (o violão).

Quenga. - Prostituta, mulher feia e velha também.

Rabo-de-galo. - Mistura alcoólica na base da cachaça e licor ou vinho.

Tira-gosto. - Qualquer coisa (fruta, queijo, doce) que se come ao mesmo tempo em que se toma cachaça. Tira-gosto da cachaça.

Viúva-de-carneiro. - Prato regional baiano, feito com os miúdos (bofe, coração, tripa, etc.) do carneiro.

Xin-xins. - Prato regional baiano. Xin-xin de galinha ou de cabrito. Preparado à base de azeite de dendo.»

 (*) ("...significado de alguns termos brasileiros que os dicionários portugueses não registam." in op.cit., p.24 e p.487)


«Ao lermos este livro admirável, este ressurgimento da arte romanesca de Jorge Amado, marco miliário da já longa tradição literária do Brasil, assalta-nos aquela comoção que sempre experimentamos em face das verdadeiras obras de grande arte: o enternecimento «humano» que nos leva à emoção, ao deleite, ao verdadeiro gozo estético, tão raros já na fatigada derrota da «literatura». E sem concessões à literatura, tão arrebatadamente quanto o lemos e relemos, Jorge Amado surge finalmente como um prosador de excelência, o homem outrora implicado na retórica fácil do circunstancialismo histórico recuperado agora pela lenta e paciente estruturação da verdadeira arte, essa que não se resigna a um plano secundário, mas que se impõe ao nível do imperativo categórico, esse campo aberto a todas as solicitações, multifacetado espelho onde a vida se contempla e se descobre.
E, no entanto, Gabrilela, Cravo e Canela é, sobretudo, um romance de amor: o amor da mulata Gabriela, heróico, selvático, primitivo e livre. De uma sensualidade esfuziante, plena de alegria, enamorada da vida mesmo quando a vida a atraiçoa, Gabriela transforma-se num símbolo da liberdade do amor, mulher enraizada na terra que a engendrou, dádiva de cristalina verdade que nem o mal nem o medo, a mentira ou a traição poderão calar.
Para lá da intriga que é a própria vida de Gabriela, descobre-se um tema secundário neste formidável romance: a crónica de uma cidade do interior do Brasil, Ilhéus, pelo ano de 1925, quando cresciam as roças do cacau, a terra prometia e os costumes se modificavam. Eis Ilhéus numa fase crucial da sua evolução: eis uma cidade povoada, de facto, por tipos inesquecíveis a meio caminho entre o primitivismo rural e as novas eras que se aproximam. Personagens arrancadas às idiossincrasias locais e trabalhadas na forja deste grande manobrador da palavra e da acção, vivem no momento de raro fulgor em que o passado fenece sob a arrancada rude do progresso enganoso que se acerca, homens de política, de intriga, de escândalo, de crimes e lendas, intérpretes da comédia humana de uma cidade que se transforma.» (in op.cit., Capa e contracapa)

«Modificava-se a fisionomia da cidade, abriam-se ruas, importavam-se automóveis, construíam-se palacetes, rasgavam-se estradas, publicavam-se jornais, fundavam-se clubes, transformava-se Ilhéus. Mais lentamente porém evoluíam os costumes, os hábitos dos homens. Assim acontece sempre, em todas as sociedades.» (in op.cit., p.20)


(Maria, 21-01-2013)