Existem outros mundos, silenciosos, remotos, solitários e solidários.
Vamos até lá...
Um agradecimento especial ao Luís Bastos,
pela sua partilha.
Abraço, Maria
«José das Dornas era um lavrador (...) sadio e de uma feliz disposição de genio, que tudo levava a rir; mas d'esse rir natural, sincero e despreoccupado, que lhe fazia bem (...).
Era-lhe familiar o canto matinal do gallo, e o amanhecer já não tinha para elle segredos não revelados. O Sol encontrava-o sempre de pé, e em pé o deixava ao esconder-se...»
"Carta ao Editor
(Carta que servia de prologo em 1875 á edição portugueza das «Pupillas do Senhor Reitor», feita em Leipzig (Allemanha) pela importante casa editora F.A. Brockhaus.)
Meu amigo.
Julio Diniz é um pseudonymo. Ocultou por muito tempo o nome de um dos mais poderosos talentos da geração moderna. Os romances firmados com aquelle modesto nome são a corôa mais brilhante da literatura romantica em Portugal. Não imitou ninguem; não teve ainda imitadores. Appareceu no meio de uma literatura sem significação, ridiculo arremèdo da orgia literaria da França; literatura sem inspiração e sem arte, sem sciencia nem consciencia, sem sentimento, corrompida, gasta, inutil... e elle, immaculado d'esta heresia da arte, espiritualista no meio do materialismo mais grosseiro, inspirado do sentimento do bello, do verdadeiro e do bom, que era o seu culto, que estava gravado na sua alma, entre escriptores para quem o bello era um engenhoso absurdo, que consideravam o verdadeiro a exhibição a nú das torpezas do vicio, que julgavam ser o bom a representação do mal, mas o mal, revestido de attractivos, romantisado, seductor; elle Julio Diniz, incognito, faz-se ler, é admirado, produz enthusiasmo, é preconisado o primeiro romancista portuguez.
E entretanto, para maior gloria do auctor, o publico não sabe quem seja; e elle proprio, quando todos o buscavam, assistindo ignorado ao seu triumpho, não se revela, nem por um gesto se denuncia.
É que Julio Diniz satisfazia uma necessidade do seu espirito, escrevendo; obedecia á sua natural modestia, ocultando-se.
Por fim, alguns raros amigos, senhores do segredo, cedendo a um generoso impulso, desvelaram-lhe o nome. Era Joaquim Guilherme Gomes Coelho, moço de 26 annos, formado na Escola medico-cirurgica do Porto, onde pouco depois devia occupar um logar distincto como professor. A esta revelação succedeu, por um lado, o jubilo; por outra parte, o pasmo. Conheciam-n'o todos: e, apesar das distincções recebidas nas aulas, ninguem nunca adivinhara n'elle o peregrino talento, que é hoje uma das primeiras glorias literarias de Portugal.
Publicara o romance As Pupillas do Senhor Reitor, indisputavelmente a joia mais preciosa, a flôr mais delicada da sua corôa literaria. O publico, juiz de cem cabeças e cem sentenças, tinha tido d'esta vez uma só opinião: que o romance era admiravel! É. Só o auctor duvidava da justiça do veredictum.
Procurou-me um dia. Haviam-lhe pedido para reproduzir o romance em volume; queria que eu lhe dissesse se elle merecia as honras de apparecer em livro. O caracter de Gomes Coelho era tam sincero, tam leal, tam nobre, que ninguem podia suspeital-o capaz de uma impostura. Mas era um homem de genio, e, como tal, nem tinha a consciencia do seu grande talento, nem do merito dos seus escriptos. Quiz demonstrar-lh'o eu. Apesar de todas as resistencias, trouxe comigo para Lisboa o original do romance e apresentei-o a Alexandre Herculano, o nosso primeiro literato, aquelle cuja opinião tinha mais auctoridade e mais valia. E o Mestre, em quem todos os verdadeiros talentos encontravam sempre um admirador sincero e enthusiasta, auctorizou-me a dizer a Julio Diniz, que elle o considerava - o primeiro talento da geração moderna, e o seu romance o primeiro romance portuguez d'este seculo.
Pobre moço! pouco tempo tinha de sobreviver aos seus triumphos successivamente alcançados pela publicação d'outros romances. Ferido de uma tysica que o não illudia e por isso o trazia amargurado, buscou nas letras allivio á tristeza que lhe ia na alma, e na mudança de clima lenitivo ao mal que lhe devorava os pulmões.
Voltando da ilha da Madeira, disse-me: - Não torno lá. Para que hei de andar fugindo á morte? Para viver mais um anno, mais alguns meses, assistindo diariamente a uma agonia lenta, e chorando na alma a cada passo que encontro aquelles que amo e hei de perder para sempre? Já basta: é melhor morrer.
E morreu, na edade de 33 annos (*), deixando de lucto as letras portuguezas e vago um logar que difficilmente se preencherá.
Ahi tem, meu Amigo, o que julguei dever dizer-lhe do auctor d'As Pupillas do Senhor Reitor. O publico allemão, a quem sujeita o livro, não precisa da minha opinião: é juiz mais competente. E como sei que o romance ha de causar ahi, ou onde quer que fôr lido, a mesma sensação que produziu entre nós, quiz que os homens de letras da Allemanha soubessem que, se a obra vale muito, o auctor valia, como homem, talvez mais ainda.
Sou, meu caro sr. Brockhaus, seu
Am.o e Ven.or
A. Soromenho (**)
Lisboa, dezembro de 1874.
(*) Aliás 32 incompletos. Editor.
(**) Notavel orientalista e erudito professor do curso superior de letras, já fallecido. Editor."
"Não tem o germe da cultura urbana (...).
Os Portugueses só serão de facto «como os europeus» quando forem capazes aos dezasseis anos de viverem num lar de jovens trabalhadores situado a quinhentos quilómetros do lugar onde nasceram, mudarem de casa como mudam de trabalho, e quando 50% deles viverem sós (...) como nos meios urbanos da Europa. É neste cadinho - para alguns um inferno - que nasce a cultura urbana. Até lá é-se rural ou ruralista.
Se a questão se refere à qualidade das coisas, «couves do quintal», «ovos das galinhas à solta», «ar puro», «água do poço» e outros clichés de aldeia, tudo desaparece sob a massa igualitaria do suburbio. Perderam-se a diferença, a convivialidade aldeã e a qualidade dos campos que o capitalismo europeu preserva afincadamente, e não se vive melhor nas cidades. Não somos rurais nem urbanos.
Somos rurais emigrados «comme un arbre dans la ville», somos rurbanos."
"O essencial é invisível para os olhos."
"O menino sabia que a Lua é habitada por pessoas muito inteligentes? (com «muita cabeça», era a sua expressão).- Porquê?, retorquiu o rapaz, boquiaberto.- Então, não se vê que a organização é tal que, tanta gente que deve caber na lua cheia, vai sendo metida em terras mais pequenas à medida que ela vai diminuindo?Aquela gente anda sempre em movimento."
"O «Cego», velho invisual de nascença, era uma figura muito conhecida da Penha Garcia de há cinquenta anos.
Passava os dias à Porta da Vila interpelando as pessoas e ensinando «os rapazes ignorantes».- Menino, disse uma vez, como está hoje a Lua? Tem os cornos para cima ou para baixo?
- Para baixo, respondeu o rapaz.
- Então, vai chover. A Lua é como um caldeiro: quando tem os cornos para cima, segura a água; mas se os tem para baixo, deixa entorná-la."